I Concurso Petrobras CasaBloco de Artes Carnavalescas 2025
–Tira já essa mão daí!
Ele não entendeu nada, é claro. Quero dizer: não entendeu nada do que eu lhe dizia, não compreendeu as palavras ríspidas que lhe dirigia. Mas entendeu perfeitamente o que a minha entonação severa lhe comunicava. Mais do que linguagem corporal, a minha era, descaradamente, uma cara de pouquíssimos amigos.
Ele ficou zonzo: pelas caipirinhas sem fim que tomou, pelo longo período tresnoitado e, em especial, porque ele já colocara aqui muito mais do que apenas sua mão.
Eu deixei, claro. Deixei porque gostei. Nada melhor do que compartilhar momentos em que as palavras nada valem, mas apenas as sensações transbordantes que assolam corpo e espírito. E, nesses casos, eu sempre me derreto todinha. O seu holandês não combinava em nada com a minha portuguesa. Éramos como macacos excitados grunhindo e gesticulando loucamente na ânsia de nos fazermos entender. Um macaco europeu e uma macaca americana.
Agora ele estava ali. Refém dos meus caprichos. Preso aos meus encantos. Submetido a olhos hostis.
Certa vez, na escola, ele leu um livro do Jorge Amado. Ficou alucinado. Não descansou enquanto não encontrou outro romance do baiano. E depois outro e mais outro. As cores, os sabores, os aromas, os sons, as mulheres, o ar dos trópicos o inebriaram e enfeitiçaram. Extasiado, leu João Ubaldo Ribeiro. E aferrou uma obsessão na cabeça: conhecer a Bahia e, se calhar, dar um pulinho no Brasil, ao que parece, ali bem perto. Mas a Bahia era-lhe fundamental: passar ao menos um dia, 24 horas, na Cidade do São Salvador da Bahia de Todos os Santos e sua vida estaria completa. Ver o Pelourinho antes de morrer, abraçar uma baiana sorridente e receptiva na Praça Castro Alves e ele poderia muito bem, a partir daí, passar o resto da vida enfurnado num escritório sombrio nos invernos perpétuos da cinzenta Europa.
Ver a Bahia antes de morrer: como ele não sabia quando haveria de morrer, fazia-se urgente partir logo para Salvador. E havia o Carnaval: como ninguém morre antes do Carnaval, essa era sua chance de ouro de realizar seu sonho de primário, do ensino fundamental, das suas leituras juvenis. Na primeira oportunidade, nas primeiras férias em seu primeiro emprego, Van partiu num voo transatlântico. Ele e a mulher do seu amigo arqueólogo, preso em pesquisas acadêmicas nos confins da Tailândia, nos recônditos das florestas tropicais da Indonésia, lugares onde abundam tailandesas e indonésias deslumbrantes, dizem…
Entediada, sua amiga queria ir para qualquer lugar do mundo que não fosse a sua austera Grã-Bretanha, tão cheia de etiquetas e tradições rigorosas. A Bahia pareceu-lhe um lugar tão bom quanto qualquer outro, fosse Ibiza, a Côte d’Azur, as pirâmides do Egito ou as Ilhas Maldivas. Por algum motivo, ela só não aceitava ir para Creta. O resto do mundo era-lhe, dir-se-ia, indiferente.
Van e a amiga chegaram ao Brasil e se acomodaram no apartamento de casal que haviam reservado num dos melhores hotéis da capital baiana. Ela só queria saber da piscina do hotel e do bar anexo, onde pretendia encher a cara num porre monumental, para onde decidiu se dirigir de topless, enquanto Van buscava os sons, as cores, os sabores, os odores e, talvez, alguns amores, no mítico Carnaval da Bahia de Jorge e João Ubaldo, mas também, logo descobriu, de Caetano, de Gil, de Gal e de Bethânia, do monumental Raul Seixas, dos Novos Baianos, de um mundo de gente da música, das artes e, em especial, da vida. Uma negritude absoluta passou a envolvê-lo e isso lhe pareceu normal, bom e aceitável.
No entanto, uma foto que dele tiraram no meio do fervo do Mercado Modelo num dos dias de maior agitação mercantil e cultural que por ali jamais grassou, Van ficou chocado pelo contraste, evidentemente gritante, entre o seu cabelo loiro quase ruivo e as cabeças negras que o circundavam. Ele não era dali, ele estragava o ambiente, ele ofendia os passantes. E foi assim que Van passou a se sentir: como um forasteiro, como uma aberração, como um convite à agressão. Trêmulo, sem saber para onde correr, pois lhe pareceu, subitamente, que todos os olhos inquiriam, de forma condenatória, a sua estranha presença ali naquele celeiro de gente decente, ele encontrou inesperado amparo nos olhos negros de Dandara, o apelido que Gabriela disse ser a forma pela qual a conheciam em toda a cidade.
Nada fazia sentido, é claro, para um rapaz holandês perdido em terras estranhas. No entanto, a jovem mulher negra tomou-o pelas mãos e seguiu com ele até o terreiro da Mãe Menininha do Gantois, e lá providenciou um descarrego a fim de melhor protegê-lo. Na volta, o batuque do Olodum fisgou-o pela barriga, agarrou-o pelas tripas. Van sentiu-se hipnotizado, tragado por um mundo que lhe era pesado demais por lhe ser absolutamente desconhecido: qualquer coisa ou acontecimento poderia brotar daquela fervura toda, levando-o a caminhos incertos e não sabidos. Em pensamento, despediu se do amigo arqueólogo, perdido nos confins da Ásia, e da mulher dele, com certeza, neste momento, muito à vontade na beira da piscina civilizada e organizada do hotel de luxo, especializado em turistas europeus, bebericando o seu gin tônica sistematicamente abastecido de novos cubos de gelos e doses adicionais de gim. Bêbada, talvez, ela estaria agora sob seu domínio se Van estivesse com ela.
Se.
Mas Van estava longe da mulher branca europeia. Ele se aconchegava, em verdade, no peito da garota que o amparava enquanto os tambores o alucinavam. Ela entrou no ritmo, ele a seguiu, hipnotizado, e tudo foi ficando doce e fácil.
–Você é negra e é homem.
Van gostaria de ter berrado essa exclamação imbuído de toda a indignação do mundo: Você é negra e é homem, caralho!
No entanto, ele não mais do que atestou o óbvio: você é negra e é homem, amor…
Van gostaria de ter sonhado que, a seguir, alguém passava com uma cimitarra reluzente e lhe cortava o pescoço de um golpe só, acordando-o para a vida branca na Europa. No entanto, nada assim aconteceu, sua cabeça continuava no lugar e apenas algo estranho ou agradável lhe provocava ardências ansiosas no meio das pernas bambas enquanto seus olhos sorriam enlevados e baianos…
Sentindo-se mais vivo do que nunca, Van afundou as mãos no meio das pernas doces e macias da mulher negra que o acalentava, sonhadora e distante, terna e misteriosa, complacente e arrebatadora.
Van soube então que aquele era o seu fim, um novo começo.
AMILCAR NEVES é escritor com doze livros de ficção publicados (dois dos quais apenas em versão eletrônica). De agosto de 2013 a julho de 2017 integrou o Conselho Estadual de Cultura, na vaga destinada à Academia Catarinense de Letras, onde ocupa a Cadeira nº 32. Por nove anos e meio publicou crônicas toda quarta-feira em jornal de circulação estadual em Santa Catarina.
A fotografia que ilustra o conto é de autoria de RENATA LOBO, produtora Executiva e Produtora de Impacto com experiência profissional no World Food Programme da ONU e no canal de notícias GloboNews. Usa a fotografia como uma de suas ferramentas para desenvolver narrativas que discutam os desafios sociais contemporâneos. Jornalista carioca formada pela PUC-Rio e pós-graduada em Relações Internacionais pela FGV-Rio, Renata atuou durante oito anos como produtora e editora no canal de notícias GloboNews. Conquistou duas medalhas de prata no New York Film Festival como produtora executiva dos documentários Trincheiras no deserto e Kobani Vive, do diretor vencedor de dois Emmy Gabriel Chaim. Renata também conquistou a segunda colocação no Prêmio CICV de Cobertura Humanitária Internacional com o programa jornalístico A vida de refugiados dos Rohingyas, um povo muçulmano. Sua trajetória profissional teve um novo capítulo ao chegar na África, em 2019, quando assumiu o posto de Oficial de Comunicação no World Food Programme, agência de combate à fome da ONU, laureada com o Nobel da Paz de 2020. Atualmente, é produtora executiva e produtora de impacto do projeto Viúvas de Maridos Vivos e segue usando a fotografia para documentar e interpretar as questões sociais contemporâneas.